(Texto publicado n'Os Armênios em 2/12/2008)
Baseado na obra A herança do divino, do escritor Leonardo Nunes Nunes. Que Deus queira bem sua alma, caro amigo, pois Cthulhu não a querá!
(O texto abaixo pode conter situações e expressões não adequadas para menores de idade ou pessoas de estômago fraco. Proceda com cautela)
2008/12/02
Von Juntz (parte III)
2008/11/19
Os gêneros são realmente necessários?
Nada como voltar de um recesso forçado cheio de boas notícias! A primeira é a entrega da maldita monografia, que levou três meses para ficar pronta (monografias normais demoram quatro, mas começam antes). Foram 76 páginas recheadas com tantas piadas internas que - por um acaso do destino - um dos únicos professores capazes de entender foi escolhido para minha banca. Essa história fica para outra hora.
Para comemorar o fim da monografia, segue um artigo meu publicado no Observatório da Imprensa (quem diria!) nesta semana (clique no link para acessar, mas tem um clipping aqui):
Mais uma madrugada de insônia. Apanho um papel e uma caneta e rabisco as primeiras palavras deste texto. Elas se tornam frases que aglutinam idéias, que organizam parágrafos. Uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão. Paro e penso: o que, afinal, escrevo?
Uma rápida esticada de braço até o monte de livros acumulados ao lado da cama há meses (um amálgama curioso que reúne desde Aristóteles até Baudrillard) me revela: o texto que escrevo é um artigo. A informação provém de um dos clássicos do jornalismo brasileiro: Jornalismo Opinativo, de José Marques de Melo. É de lá que extraio o seguinte conceito: "Trata-se de uma matéria jornalística onde alguém desenvolve uma idéia e apresenta uma opinião."
Me dou por satisfeito e tento fechar o livro, mas meus olhos pairam sobre o texto de outra página: a angulagem do artigo é "determinada pelo critério de competência dos autores". São duas linhas de texto que abalam minha auto-estima: serei eu competente o suficiente para escrever um artigo? Acredito que sou, se comparado a estudantes do ensino médio, porém não devo ser tão bom ou experiente quanto alguém com doutorado. E agora? Meu texto é um artigo para uns e para outros não? Seria então um comentário?
Artigo, comentário, crônica...
Felizmente, não sou o primeiro a me debruçar sobre essa questão. Volto para minha pilha e busco o Sotaques d’aquém e d’além mar, de Manuel Carlos Chaparro. É ele que diz que são "subjetivas e insuficientes as características apontadas por Melo como diferenciais entre o comentário e o artigo". Ufa! Não preciso mais temer ser atacado na rua por alguém que me grite algo do tipo "Mentiroso!, Você não é competente para escrever um artigo!" Relaxo e encerro o texto me dando por satisfeito: escrevi um artigo.
Antes de dormir, releio o que já escrevi. Encontro traços de lirismo nos primeiros parágrafos. Novo pânico. Relembro outro conceito de Melo: "Crônica é o relato poético do real." E agora? Será meu artigo uma crônica?
"Chaparro me salvou antes, pode ser que me ajude de novo!", penso. Revejo a teoria dos gêneros que ele propõe. Ao invés de separá-los em duas grandes categorias separadas pelo binômio informação X opinião, Chaparro propõe uma classificação baseada na estrutura dos textos, já que informação e opinião não se separam. À classe antes informativa, Chaparro chama de relato e aponta o uso de uma estrutura textual narrativa. Já ao antigo texto opinativo, o autor chama de comentário e lhe cede uma estrutura argumentativa. De repente, meu texto passa a poder ser – quem diria! – uma reportagem.
Mais uma vez o releio, satisfeito com a resposta. Mas, espere! Esse texto começou certamente com estrutura narrativa, vindo a tornar-se argumentativo com o passar do tempo. A classificação de Chaparro aponta na coluna o único gênero híbrido e mesmo assim o faz no sentido de "ou é um ou é outro", mas ele próprio nunca menciona textos que mesclam ambas as estruturas.
Coitado do meu texto. Já foi artigo, comentário, crônica, reportagem. Por um tempo vai continuar órfão, senão essa história (isto é mesmo uma história?) não acaba.
Reclassificação forçosa
Nova leitura da minha bibliografia revela: é creditado a Samuel Buckley o posto de primeira pessoa a dividir os textos jornalísticos. De um lado, ele jogou os textos informativos (news) e de outro, o texto opinativo (comments). Buckley acordou em um dia (possivelmente) de sol, no ano de 1702, e teve uma epifania. Chegou à redação do Daily Courant, jornal inglês do qual era diretor, e separou os textos.
Ele não sabia, mas criava, naquele momento, o binômio informação X opinião que ecoaria por anos e anos na teoria do jornalismo, culminando, quem diria!, neste texto deslocado. Se Buckley soubesse o que estava fazendo, teria ele continuado com a inovação, cravando definitivamente seu nome na história? Ou teria ele desistido?
Luis Fernando Veríssimo que me perdoe, mas durante o longo processo de coleta de dados para minha monografia fui obrigado a reclassificar duas de suas crônicas como comentários. A confusão não é só dele: em mais de mil textos pesquisados, apareceu de tudo: artigos que eram crônicas, crônicas que eram notas e reportagens que não eram nada.
Essa variedade de textos me leva a uma observação: classificar gêneros em espécies fixas e dizer que qualquer coisa nova é espécie híbrida é transformar o jornalismo em uma estátua de gesso. A internet, por exemplo, trouxe novas formas de se escrever que as teorias não cobrem.
Nem mesmo as estruturas de Chaparro dão conta deste texto, que começou de um jeito e agora segue de outro. Claro que poderia simplesmente classificá-lo como crônica, mas dizer que tudo que não se enquadra em gênero definido é crônica significa reduzi-la a mera lata de lixo.
Cortar as asas do jornalista
E não digo isso como forma de reclamar que as teorias dos gêneros não são importantes: é apenas a conclusão lógica de uma conversa que tive com excelentíssimo doutor, meu orientador, Otavio Klein, em uma de nossas manhãs de orientação. Dizia ele que toda teoria é feita em cima do que já foi observado, dificilmente sobre aquilo que acontecerá.
No caso da teoria dos gêneros, ela pode ser um impasse, pois limita a criatividade de quem escreve, fazendo com que o jornalista se reduza a meia dúzia de receitas prontas para o mesmo bolo. E o resultado, às vezes, são textos como este, dignos de uma crise de identidade, que um jornalista conservador descartará porque não se encaixa em lugar algum.
Preferível, no caso, é alguém que não saiba o que é, por exemplo, um editorial, mas que consiga escrever um texto argumentativo, impessoal e com a opinião de terceiros. Limitar o texto jornalístico às formas da teoria dos gêneros é cortar as asas do jornalista ou, na melhor das hipóteses, dizer para onde ele deve voar.
P.S. Desisto de classificar este texto. Quem tiver alguma idéia, por favor, comente!
(João Vicente Kurtz acredita que este texto pertença ao inédito gênero surubão, porém achou prudente não adicionar esta informação no texto original)
Atualização (23/11/2008 - 16:58) - Comentário publicado no texto original no Observatório da Imprensa:
Iranildes Costa , Simões Filho-BA - Estudante de Jornalismo
Enviado em 23/11/2008 às 12:47:26 PM
Caro Kurtz, sinceramente não saberia como classificar o seu texto, mas as idéias contidas nele são como um oásis nesse deserto de teorias obsoletas e de fórmulas prontas que só induzem à falta de originalidade. A obsessão de transformar qualquer instituição em linha de montagem acaba limitando o poder criativo e a falta de liberdade para expressar-se pode transformar "intelectuais" em operadores de asneiras.... Nós temos a obrigação de mudar essa história.
2008/08/04
Série Gundam vira tema de grupo de estudos internacional
(texto publicado n'Os Armênios em 03/08/2008)
Quando os estúdios Sunrise lançaram a famosa série de animação japonesa Mobile Suit Gundam (機動戦士ガンダム, Kidou senshi gandamu, para quem se interessar), no distante ano de 1979, eles não imaginavam a revolução cultural que estavam promovendo. Aliás, ninguém imagina.
| Gundam Exia, também conhecido como "Sete espadas". Te cuida, Roronoa Zoro! |
E depois desse começo clichê, nada melhor que partir para a notícia: uma série de universidades japonesas, chinesas e sul-coreanas se uniram para formar a International Gundam Society (Sociedade Gundam Internacional), um grupo de estudos de futurologia que se baseia na série para investigar "assuntos relacionados ao ambiente, população e alimentação".
A IGS foi estabelecida durante a bienal de animação da associação econômica de Hiroshima e será presidida por Shinya Hashizuke, professor da Universidade de Osaka. No dia 24 de agosto deste ano, ocorrerá um simpósio em Naka-ku, Hiroshima, para oficializar a abertura da sociedade.
Quase trinta anos de robôs gigantes
Mobile Suit Gundam estreou no Japão no dia 7 de abril de 1979, na rede de televisão Nagoya. A série original teve 43 episódios, onde era contada a história do oficial da Federação Amuro Ray.
Após o sucesso da série inicial, outras histórias relacionadas com a franquia foram lançadas. Ao todo são mais de 20 séries animadas (algumas interligadas entre si), sem falar em filmes, livros e mangás. No Brasil, a primeira série a aparecer foi Gundam Wing (mas cuidado: esse dado pode estar errado).
Fontes:
Jornal Mainichi - "International academic society dedicated to 'Gundam' animation set to debut"
Mobile suit Gundam na Anime News Network
(João Vicente Kurtz ansiosamente espera a segunda temporada de Gundam 00, que, segundo a Wikipédia, sai em outubro)
2008/07/31
Von Juntz (parte II)
(texto publicado n'Os Armênios em 31/07/2008)
Baseado na obra A herança do divino, do escritor Leonardo Nunes Nunes. Que Deus queira bem sua alma, caro amigo, pois Cthulhu não a querá!
Parte dois
Peguei a folha do chão e li: era uma carta de Robert H., que depois descobri ser um antigo Conde da Normândia, endereçada à sua falecida esposa Elise. O manuscrito estava escrito em um português arcaico, meus estudos posteriores revelaram. Na carta, Robert H. contava a Elise, sua esposa, como a amava loucamente e a desejava de uma forma um tanto carnal. Apenas um detalhe da carta me chamou a atenção, pois ela fora escrita três anos após o falecimento de Elise.
Levei a carta para casa, li-a várias vezes ao longo dos anos, pois ela me fascinara. Ficava pensando: quem seria Elise? Qual sua aparência? O que havia nela que levara Robert H. a escrever, mesmo depois de sua morte? As dúvidas me levaram a pesquisas, que me trouxeram somente o conhecimento que já expus logo acima.
Uma noite, quando eu tinha dezoito anos, minha casa estava sem luz. Eu, fascinado, acendi uma vela em minha escrivaninha, cuja luz me permitia ler novamente a carta de Robert H. Em um momento de descuido, deixei que a carta se aproximasse demais das chamas. Temi que ela se desintegrasse, mas foi o contrário que ocorreu. Por entre as letras da carta, novas palavras se formavam, queimadas com a chama da verdade para que somente o escolhido, que era eu, as encontrassem. No meio das linhas, nasceram novas palavras, que viriam a ser tanto o testamento quanto o legado de Robert H.
O texto era uma espécie de ritual que, se bem sucedido, traria Elise de volta a vida. No início duvidei de sua autenticidade, porém voltei à biblioteca e consultei o Dicionário do Oculto, outra obra de Von Juntz, onde encontrei no verbete ressureição a seguinte definição: "é possível, mas altamente não recomendável". Após muita reflexão, optei por realizar o ritual, que envolvia o sacrifício de três cadelas, o que não foi muito difícil de conseguir. O maior problema é que, para que funcionasse, o feitiço deveria ser executado na noite do solstício de inverno, que infelizmente ocorrera um dia antes de eu descobrir a mensagem secreta.
Tive que esperar um ano inteiro para poder realizar o ritual, o que me deu tempo de preparar os ingredientes necessários. Na noite apontada, repeti as palavras mágicas da mesma forma que Robert H. as escrevera. Podia sentir as forças místicas do desconhecido agindo sobre o círculo mágico, consumindo a carne já podre dos cães e ressuscitando a força vital de Elise em minha frente. Ou pelo menos foi o que acreditei, porque nada mais aconteceu. Voltei para casa arrependido de ter acreditado por vários anos no amor de Robert H. e lacrei sua carta em uma gaveta, na esperança de nunca mais abri-la novamente.
Alguns meses se passaram sem que nada acontecesse. Eu, por outro lado, estava muito enganado a respeito dos efeitos do ritual, que vieram até mim de modo satânico e imprevisível. Estava eu sentado na sala de estar de minha casa, assistindo a meu programa de televisão favorito, que como deves saber, chama-se As aventuras de Howard Philips. No início, foram sensações estranhas que se apoderaram do meu corpo, quase imperceptíveis, gestos que eu nunca fazia, passei a fazer, como mexer o cabelo com as mãos. Em algumas semanas, mudei até minha dieta, passando a desejar me alimentar de cenouras, que desde pequeno sempre tive desgosto.
Eu demorei até perceber estas sutis mudanças em minha psique, o que finalmente aconteceu quando eu, em um momento de necessidade, dirigi-me ao banheiro mais próximo e, por um motivo desconhecido, quase entrei no banheiro feminino. Pensei se tratar apenas de um lapso, mas quando, já no banheiro certo, me sentei na privada para urinar, percebi que havia algo errado comigo.
(continua...)
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2008/07/11
Von Juntz (parte I)
(texto publicado n'Os Armênios em 28/06/2008)
Baseado na obra A herança do divino, do escritor Leonardo Nunes Nunes. Que Deus queira bem sua alma, caro amigo, pois Cthulhu não a querá!
Parte um
“Wenn haben sie zeit vergeudet mit diese, ist weil sie haben keine mehr zu machen”
Texto contido na introdução do original em alemão do livro Unnaussprechlichen Kulten, de Von Juntz
Caro Professor Zehvonsik
Escrevo-lhe esta carta com o intuito de relatar-lhe minhas experiências com o sobrenatural, que como deve saber, é minha área de pesquisa preferida, visto que comecei a estudá-la ainda muito jovem, como relato abaixo para que leia.
O verdadeiro motivo pelo qual esta área em específico chamou-me a atenção é um nome que o senhor, professor Zehvonsik, já deve há muito conhecer ou, pelo menos, ter ouvido falar; e esta pessoa que me refiro é o pesquisador do oculto Von Juntz, cuja primeira aparição no cenário oculto se deu há mais de dez anos, quando revelou ao mundo sua pesquisa em rituais satânicos e seitas iluministas do século VIII, o que lhe rendeu o ostracismo de seus colegas de trabalho, aos quais na época eu não fazia parte.
O que quero lhe contar, meu caro e íntimo amigo, é toda a minha relação com Von Juntz, para que possas terminar com a maldição que ele me rogou, pois eu já estou reduzido a cinzas do que era antes de conhecer Elise, o motivo verdadeiro de minha corrupção.
Meu primeiro encontro com Von Juntz não foi a nível pessoal. Ele estava na televisão, em um show, onde fazia o lançamento de seu novo livro, cujo título, Unnaussprechlichen Kulten, me chamou atenção por falar de demônios ancestrais cujos nomes só eram conhecidos em línguas ocultas criadas por sociedades secretas. Por ironia, é deste livro que tiro a citação que abre esta carta, pois acredito que ela explica melhor tudo aquilo que quero que o senhor saiba.
Eu tinha na época quinze anos. Fui no outro dia na biblioteca, onde achei a obra de Von Juntz na seção dedicada ao oculto, que ficava no segundo andar, dobrando três corredores. As pessoas que se dirigiam a essa parte da biblioteca geralmente eram mais sombrias que as outras, exalando de seus corpos hálitos horríveis de pessoas que carregam segredos. Estranhamente, poucas vinham daquela seção, e sim da que ficava ao lado, um corredor onde eu nunca havia entrado, que ostentava uma exuberante coleção que pertencia a um assunto com a letra P.
Sentei-me em uma das mesas do primeiro andar, tendo em meus braços o livro de Von Juntz. Abrí-o e iniciei a leitura vorazmente. O livro trazia documentos e provas da existência dos cultos antigos, e o que mais me chamou a atenção era a seita intitulada Lesbos Henxinos, composta apenas de mulheres que sacrificavam vacas a um deus antigo na esperança de se tornarem gafanhotos, animais que, para elas, trariam a purificação para o mundo.
Terminei a leitura não por vontade, mas por obrigação, pois o livro negro me tomara tanto tempo que quando percebi, já anoitecera, e a biblioteca estava fechando. Enquanto devolvia o Unnaussprechlichen Kulten à sua prateleira, vi cair do meio de suas páginas uma folha avulsa...
(continua...)
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2008/06/06
Salada de frutas com verdura
(texto publicado no site Os Armênios no dia 5 de junho)
Tudo bem que já faz quase uma semana, mas só na terça-feira consegui assistir ao último episódio da quarta temporada de Lost. Spoilers e coelhos viajantes no tempo a parte, o final da série põe em cheque um fator um tanto mais pessoal: enquanto a quinta temporada não chega, o que eu vou assistir para fechar o tempo?
O mais óbvio é que tem que ser uma série de ficção científica mas, como a greve dos roteiristas assassinou dez episódios da temporada, ficam alguns meses vagos até a terceira série de Heroes. Nesse vácuo temporal, nada melhor do que voltar os olhos para a produção nacional. É por esses – e outros – motivos que sintonizei na rede Record para assistir ao primeiro capítulo da novela Os mutantes – Caminhos do coração.
Nos primórdios da minha juventude, quando passava com amigos as tardes jogando RPG, costumavamos seguir uma regra básica na criação dos cenários: "misture com moderação", algo que a novela de Tiago Santiago não segue. Só no primeiro capítulo, são vampiros, mutantes e – pasmem – dinossauros assombrando São Paulo. A cena dos dinossauros, alias, mostra um filhote que acaba de sair do ovo correndo em direção ao mar com destino à cidade grande. Jurassik Park?
Guerra de horário
Problemas na receita a parte, Os mutantes é um produto midiático de sucesso. A primeira temporada de Caminhos do coração alcançava a média de 20 pontos no ibope. E isso que contava com uma boa parte de seu público cativo pertencente a crianças e adolescentes.
A nova fase não irá mais ao ar tarde da noite, e sim às 20:40. "Então, com isso a gente vai resolver o problema de milhões de lares do Brasil onde hoje em dia as crianças querem dormir mais tarde para poder ver Caminhos do Coração", conta Tiago Santiago, em entrevista ao site Estrelando.
A conveniência com o público não é o único motivo pelo qual o horário foi modificado. Quando pertencia à faixa das 22 horas, Caminhos batia de frente com Queridos amigos, da Rede Globo. "Que pelo público não foi tão querida e no enfrentamento direto chegou a fazer 12 pontos", lembra o jornalista Fernando Schweitzer em artigo para o Observatório da Imprensa. A estratégia aparenta estar funcionando: embora não tenha vencido, o folhetim da Record registrou 23,3 pontos de audiência, contra 35 de A favorita, da Globo. Só para lembrar, o último capítulo de Duas caras (a novela que era inimiga do Batman) registrou 45 pontos.
Sopa de letrinhas
Os mutantes é uma inovação na história da teledramaturgia brasileira por elevar o gênero de ficção científica a níveis nunca antes presenciados. Claro que nós já passamos por coisas como O beijo do vampiro e a clássica Vamp, mas nunca a salada de frutas misturou tantos elementos como os de Lost (uma ilha com seres estranhos) e Heroes (os próprios seres estranhos).
Também há uma mistura absurda de Tropa de Elite com X-men, já que teremos um pelotão da polícia especializado em caça aos mutantes (mal posso esperar para que eles empreguem ciborgues gigantes chamados de “vigias”, para não tornar a fonte de inspiração tão óbvia). No primeiro capítulo, alias, o tal pelotão, chamado Depecom, parte para o centro de São Paulo para conter uma revolta de lobisomens utilizando armas não-letais e dardos tranquilizantes.
No quesito mutantes, a novela já mostrou mais de 33, sendo que pelo menos 12 novos serão adicionados na segunda fase. Os poderes variam entre vampirismo, licantropia, uma mulher com habilidades acrobáticas e sua irmã gêmea com a habilidade de absorver poderes, entre outros que ainda deverão aparecer, como um garoto nerd-super-gênio com a habilidade de criar máquinas com poderes, ao melhor estilo Forge (na versão X-men evolution, claro).
Provavelmente, não devo assistir mais a Os mutantes. Prefiro parafrasear Chico Buarque e dizer que "to me guardando pra quando Heroes chegar", o que só deve acontecer em setembro. Só para concluir, a salada de frutas da novela brasileira foi tão misturada que até verdura tem no meio. Até hoje, poucas séries conseguiram combinar elementos diversos como vampiros, lobisomens, alienígenas e semelhantes de forma tão harmônica, e Os mutantes não é uma delas. Agora com licença, vou me desintoxicar tomando um pan-galatic garbleblaster, porque essa mereceu.
Links interessantes (e de onde saíram os dados desse texto)
FNDC - Novela sobre mutantes pode chegar aos cinemas
Estrelando - Entrevista: Tiago Santiago apresenta novos mutantes
Folha online - "Os Mutantes", nova fase de "Caminhos do Coração", estréia na terça
Folha online - "Os Mutantes" começa com efeitos toscos de dinos e lobisomens
Observatório da imprensa - Aguardemos as cenas do próximo capítulo
2007/09/22
Nesse pântano não tem perereca!
| Foto: João Vicente Kurtz/MBB |
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| Se para você isto é apenas uma escadaria, leia com urgência a página dois do Cadafalso #19! |
Texto escrito com exclusividade (!) para o Cadafalso. Aqui vai o clipping.
Havia, em algum lugar dos pampas do nosso Rio Grande, uma cidade que, assim, não chegava, para ser bem sincero, a ter quase 190 mil habitantes, mas a cifra se aproximava. Esta cidade, cujo nome não convém revelar por motivos um tanto, digamos, burlescos, possuía, como qualquer outra, casas onde um homem pode passar a noite bem acompanhado (ou não) sem ter que se preocupar com atentados contra sua privacidade. Desde que, claro, observe as regras do bom senso e se lembre de pagar muito bem a sua acompanhante pelo silêncio. E isso vale para todo mundo, seja um figurão ou um miserável. A diferença é que se o primeiro não pagar para o parceiro, pode subornar a mídia depois para abafar o caso e não sair mal na fita. Já para salvar o casamento, se a mulher ficar sabendo do ocorrido, bem, a história daí é outra. Perdeu, playboy!
Em uma noite típica de verão, aquelas em que você só pensa mesmo em sentar na grama e ficar olhando para o céu estrelado sem ter que se preocupar com coisas triviais como a vida, o universo e todo resto, uma atendente de uma dessas casas de pouso, conhecidas popularmente como motel, fazia justamente isso: apoiada na janela do guichê, mirava o céu e esvaziava a mente, pensando apenas no dia seguinte quando, com a namorada, passearia por entre cenários de um sonho particular que só elas duas conseguiram sonhar. O amor é lindo.
Acontece que este relaxar solitário e quase que pornográfico foi interrompido por um carro que passava pela estrada, nas saídas da cidade. Ela não se surpreendeu por ser um carro amarelo, um tanto mais caro que o de clientes regulares do curioso estabelecimento; tampouco por ver, dentro das janelas, uma das personalidades mais influentes da cidade, este já era figurinha carimbada. O fator que causou maior impacto para a atendente foi perceber, pela primeira vez desde que começara naquele emprego, a presença de um homem ao lado do figurão. Este homem, ela não pode deixar de observar, não se vestia de homem, era mais um dos travestis que faziam ponto no outro lado da avenida, perto de uma escola primária. Da mesma forma que fora ensinada pelo patrão, nada comentou, porém fez muita força para não rir descontrolada e diabolicamente. Apenas teve certeza de uma coisa: no outro dia ia contar para suas amigas.
O carro do figurão se dirigiu ao quarto mais caro e chique daquele tal de motel. Por lá, o casal fez peripécias inimagináveis e proibidas para menores de 18 anos a noite inteira. Por sorte, ninguém ocupou os quartos vizinhos. Houvesse movimentação, a pessoa que lá estava certamente ouviria gritos horrendos e ficaria 3,14 dias sem dormir (nem mais, nem menos).
Amanheceu. A atendente não agüentava mais aquele guichê e aquela janela. O sol, aquela bola amarela desgraçada, já brilhava intensamente no céu, fodendo qualquer tentativa desesperada de aproveitar o resto da noite para iniciar uma boa noite de sono. Da personalidade, nem lembrava mais; só queria ir para casa. Olhou ao redor e viu todos aqueles quartos cheios de camas, onde ela poderia relaxar o sono dos trabalhadores, que certamente lhe causaria demissão se fosse pega lá dentro em horário de expediente. Todos aqueles quartos, aqueles quartos com camas, ao fundo, aqueles gritos histéricos... “Gritos?”, pensou assustada, e foi até lá para ver do que se tratava.
Na porta do quarto, a personalidade secreta tentava se desvencilhar do bizarro amante, que por sua vez gritava com uma voz mais grossa que a do presidente, certamente inadequada para uma mulher daquele porte, se aquela fosse uma mulher daquele porte.
A atendente acompanhou o embuste por alguns minutos, ainda ocultada pela raiva entre os dois recém-amados. O motivo da discussão era algo extremamente banal e comum, mas que todo homem que recorre aos encantos da putaria já encarou mais cedo ou – provavelmente – mais tarde: a hora do pagamento. O figurão, embriagado não só pelo álcool como também por seu bolso, se recusava a fornecer ao homem afeminado a quantia combinada.
- Chama a polícia, minha filha! – Gritou o travesti, que finalmente percebeu a atendente pasma ao seu lado.
Ela correu até o guichê e, assustada, pegou o telefone e discou para o 911, pois fora criada assistindo seriados americanos. Demorou umas duas chamadas não-concluídas para se tocar que o número correto era 190. Gaguejou duas vezes, ou melhor, três vezes até conseguir explicar aos policiais o que estava acontecendo. Embalados pela singularidade do caso, apareceram em tempo recorde e três viaturas lotadas.
Cercaram os dois homens, ou melhor, o homem e o travesti, já de cassetete em punho preparados para meter o terror. O travesti avançou em cima dos policiais, gritando em alto e bom tom:
- Esse desgraçado não quer me pagar! – exclamava histérica.
Os policiais não tiveram dúvidas e perguntaram à personalidade o que diabos estava acontecendo naquela porra de lugar. O figurão tentou escapar da vergonha recorrendo à desculpa mais esfarrapada possível:
- Mas eu não sabia que era um homem!
O travesti, indignado, retrucou:
- Como não, se comi teu cu a noite inteira?
2007/01/29
A mulher que lê
Não era profundo apreciador da arte. Por exemplo, não saberia diferenciar um Rembrant de um Shakespeare, tamanha sua ignorância. Destarte, não podia precisar exatamete qual impulso o fez entrar no museu de arte moderna.
Dirigido por um caminho aleatório, mas que talvez estivesse, desde o início, determinado, Leonardo (pois esse era seu nome) percorreu corredores e mais corredores, entrando em contato com a exposição de arte pós-moderna que o folder anunciava. Diversas obras envolvendo sons, cores, luzes e imagens se alternavam sem, entretanto, despertar nele uma única mudança na sua expressão. Em sua mente, desfilavam idéias desconexas sobre problemas de cunho material.
Em uma ala mais afastada, quase escondida, Leonardo parou, atônito. A exposição em questão se resumia a um video, de uns dois minutos só. Na tela, uma mulher aparecia deitada em uma cama, de costas para cima. A câmera, posicionada de forma diagonal, altura mais baixa que a cama, focava em sua face. Lia alguma coisa, mas o close mal permitia ver as páginas sendo foleadas. Durante toda a exibição do video, em só uma ocasião a mão podia ser vista. Quando o filme terminava, instantaneamente reiniciava.
Leonardo não soube dizer quanto tempo ficou parado, vendo tal vídeo. Sabia apenas que passaram-se horas até que o segurança aproximou-se dele e pediu para que ele se retirasse, pois o museu estava fechando. Leonardo foi para casa perplexo e passou a noite pensando na mulher do vídeo, sem conseguir dormir. No dia seguinte, voltou ao museu.
Depois de horas de admiração plena, Leonardo já podia precisar os mais diversos nuances que a mulher, centrada em sua introspecção, exibia. Ele viu seu rosto feliz, triste, sério, preocupado, descontraído. Para Leonardo não restara mais dúvidas: amava aquela mulher desconhecida.
Uma semana se passou na qual Leonardo, em sua fixação de apaixonado, seguia todos os dias para o museu, admirando mais e mais a mulher desconhecida. Uma tarde, perdido em contemplação, foi surpreendido pelo segurança do museu:
- Sabia que hoje é o último dia dessa exposição?
Desastre. Leonardo entrou em pânico. Agarrou o homem desesperado, perguntando como era possível. O segurança explicou o óbvio: exposições são, por definição, temporárias. Leonardo ainda insistiu, mas foi em vão. Usou o resto do dia para contemplar, pela última vez, a mulher que amava. Ainda assim voltou no dia seguinte, na esperança de encontrá-la, mais uma vez. Encontrou uma exposição sobre arte GLTS e no lugar do vídeo uma escultura em tamanho real de dois homens se beijando. Saiu de lá enojado e entrou na secretaria.
Tanto insistiu que conseguiu, com muito esforço, uma cópia do vídeo. Passou uma semana inteira em casa, vendo a mulher nas mesmas posições que ele, a essa altura, já tinha decorado. Seu amor por ela crescia cada vez mais, e ele sofria quando não podia, por um motivo ou outro, admirá-la. Um dia, relaxou demais e cochilou. O dvd não estava programado para repetir e mostrou as cenas de outras exposições. Quando Leonardo acordou, a televisão exibia os créditos pelas obras. Ele se sentou e coçou os olhos, que se acostumaram justamente no momento em que as informações referentes a "A mulher que lê" (era o título do vídeo). Era estranho que, apesar de ter visto tantas vezes a cena, Leonardo nunca pensou em quem afinal fez a obra de arte ou quem era, afinal a mulher que amava. Agora estava tudo ali, escrito na frente dele. Ele pausou o filme e descobriu perdido nas informações o telefone para contato do artista, pensando que, se conversasse com ele, descobriria algo sobre a amada.
No dia seguinte, pouco depois do almoço, Leonardo reuniu coragem e ligou para ele. Quando atendeu, explicou quem era e o que queria, de maneira cordial. Disse que assistira a "A mulher que lê" e, por ter gostado da obra, gostaria de saber um pouco mais sobre a mulher que ela retratava.
- Ah sim – respondeu o artista, do outro lado do telefone – ela é minha esposa.
Leonardo desligou o telefone e caminhou para a janela do apartamento. Então se jogou.
Meta: Quem adivinhar quem é a mulher do texto e qual foi o sentimento que o motivou ganha um beijo na boca. Promoção não-válida para a Ari, a Mari, o Robson e o Tex.
2006/12/24
O bicicleteiro
Tinha hábitos estranhos. Um dia, comprou uma bicicleta e não a largava. Ia com ela para todos os lugares, fizesse chuva ou sol, até para a escola, que ficava do outro lado da cidade. Atrasava-se sempre, sem se importar. Perguntavam-no sobre seu veículo, e sempre respondia: "É que eu sou bicicleteiro!".
Ninguém o entendia. Dizia que encontrou o termo em um dicionário hispogermânico e resolvera adotá-lo. Seus pais, preocupados, o internaram em um hospital mental, de onde saiu duas semanas depois, aparentemente curado. Passados alguns dias, vendeu sua bicicleta por um preço razoavelmente superior ao qual havia comprado.
Dois meses se passaram e não mais falava da bicicleta. Felizes, os pais chamaram seus amigos e lhe deram uma festa surpresa.Quando ele chegou em casa, inverteu a situação mesmo sem saber de nada, e foi ele que surpreendeu a todos com uma gaitinha, dessas de criança, que se pode comprar em qualquer loja de um e noventa e nove, que trazia embaixo do braço. "É que eu sou picolezeiro!", disse ao perceber o espanto de todos.
Durante três semanas seguidas tocou sua gaitinha. Tocava no ônibus da escola, no meio das aulas e também na hora do almoço. Os colegas, novamente preocupados, procuraram satisfações, mas ele sempre respondia irritado: "Deixem-me picolezear em paz!".
Um dia, os colegas não agüentaram e quebraram sua gaitinha. A diretora, que estava presente, aplaudiu a cena. Ele nunca mais foi o mesmo. O tempo passou e sempre estava abatido. Não fez mais a barba e nem tomava banho, tampouco passava desodorante. Tornou-se insuportável e perdeu todos os amigos. Até seus pais tinham vergonha dele.
Enfim completou dezoito anos. Seus pais o presentearam com um pouco de dinheiro e, aliviados, o expulsaram de casa. Uma manhã, não apareceu na parada. O ônibus estava quieto, todos estavam preocupados com ele; na aula, todos comentaram. No recreio, ouviram um som familiar e correram para a janela. E lá estava ele, alegremente tocando uma gaitinha, montado em uma bicicleta, vendendo picolé.
Meta: Essa é uma história antiga que eu achei nos backups, dei uma arrumada e postei de novo. É a terceira versão de um conto clássico.
