| Foto: João Vicente Kurtz |
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Há muito tempo atrás - meados de 99, 2000, tanto faz - alguém (possivelmente a Mãe Dinah, aquela que tudo erra) previu que um enorme furacão atingiria e destruiria Passo Fundo. Claro que a vidente, que não é nenhum Walter Mercado (isso ainda existe?), errou profundamente. Ou não, talvez o furacão fosse metafórico, sei lá. Ela poderia ter previsto a queda do Bella Cittá, o Robson atropelando as Casas Bahia ou mesmo os Hurricanger, que passou em 2003.
A madame, certamente, não foi o embrião de um pensamento para uma Passo Fundo pós-apocalíptica que surgiu anos depois. O raciocínio é simples, ainda mais para quem leu X/1999: a cidade é inundada (não importa o motivo). Algumas áreas são permanentemente submersas, se tornando praias. Surgem lagos por aí, milhares de desabrigados e pessoas fazendo arte sobre tudo isso.
A praia mais famosa nesse cenário seria aquela na esquina da Capitão Eleutério com a Independência, conhecida como Praia do Bokinha (na época que o Bokinha ainda existia). De dia, famílias inteiras iriam almoçar frutos do mar no Boka, convertido em grande bar de praia. À noite, os mesmos bêbados de sempre iriam ao Bokinha, beberiam as mesmas bebidas de sempre, falariam das mesmas futilidades de sempre. A diferença é que, nas primeiras horas da manhã de domingo, a praia seria interditada para a remoção dos corpos de pessoas que não resistiram e se jogaram no mar depois de uma porção de batatas bolinha. Muitos de nossos melhores amigos teriam morrido desta forma. Alguns, mais de uma vez.
E como a vida imita a arte (no caso, no sentido de mal-criação), a foto representa uma boate bem antiga cujo nome ninguém se lembra (ninguém!). Depois da chuva da última quinta-feira (6), a entrada do local (que fica na av. Sete de Setembro, perto do Zaffari) ficou submersa. Essa boate, alias, já foi palco de mortes, sangue e destruição. E agora foi inundada. Lavou consigo memórias de noites acampado no lugar esperando pessoas, mas isso pouco importa. Resgatou memórias de uma Passo Fundo pós-apocalíptica, cuja história, curiosamente, eu contava para a Clarissa um dia antes, enquanto bebíamos, veja só, em um bar que lembra muito uma praia.
Sobre a chuva de Passo Fundo, nada mais diremos. Quem quiser se informar que leia as notícias na imprensa local. Pessoalmente, recomendamos esse ótimo post da Cami, que expressa tudo o que nós pensamos sobre o assunto.
(João Vicente Kurtz não nadaria no mar de Passo Fundo devido a lembranças de noites na Prainha de Ernestina. Mas sobre isso, e sobre peixes que falam "andain", ele não comenta)
