2008/07/31

Von Juntz (parte II)

(texto publicado n'Os Armênios em 31/07/2008)

Baseado na obra A herança do divino, do escritor Leonardo Nunes Nunes. Que Deus queira bem sua alma, caro amigo, pois Cthulhu não a querá!

Parte dois

Peguei a folha do chão e li: era uma carta de Robert H., que depois descobri ser um antigo Conde da Normândia, endereçada à sua falecida esposa Elise. O manuscrito estava escrito em um português arcaico, meus estudos posteriores revelaram. Na carta, Robert H. contava a Elise, sua esposa, como a amava loucamente e a desejava de uma forma um tanto carnal. Apenas um detalhe da carta me chamou a atenção, pois ela fora escrita três anos após o falecimento de Elise.

Levei a carta para casa, li-a várias vezes ao longo dos anos, pois ela me fascinara. Ficava pensando: quem seria Elise? Qual sua aparência? O que havia nela que levara Robert H. a escrever, mesmo depois de sua morte? As dúvidas me levaram a pesquisas, que me trouxeram somente o conhecimento que já expus logo acima.

Uma noite, quando eu tinha dezoito anos, minha casa estava sem luz. Eu, fascinado, acendi uma vela em minha escrivaninha, cuja luz me permitia ler novamente a carta de Robert H. Em um momento de descuido, deixei que a carta se aproximasse demais das chamas. Temi que ela se desintegrasse, mas foi o contrário que ocorreu. Por entre as letras da carta, novas palavras se formavam, queimadas com a chama da verdade para que somente o escolhido, que era eu, as encontrassem. No meio das linhas, nasceram novas palavras, que viriam a ser tanto o testamento quanto o legado de Robert H.

O texto era uma espécie de ritual que, se bem sucedido, traria Elise de volta a vida. No início duvidei de sua autenticidade, porém voltei à biblioteca e consultei o Dicionário do Oculto, outra obra de Von Juntz, onde encontrei no verbete ressureição a seguinte definição: "é possível, mas altamente não recomendável". Após muita reflexão, optei por realizar o ritual, que envolvia o sacrifício de três cadelas, o que não foi muito difícil de conseguir. O maior problema é que, para que funcionasse, o feitiço deveria ser executado na noite do solstício de inverno, que infelizmente ocorrera um dia antes de eu descobrir a mensagem secreta.

Tive que esperar um ano inteiro para poder realizar o ritual, o que me deu tempo de preparar os ingredientes necessários. Na noite apontada, repeti as palavras mágicas da mesma forma que Robert H. as escrevera. Podia sentir as forças místicas do desconhecido agindo sobre o círculo mágico, consumindo a carne já podre dos cães e ressuscitando a força vital de Elise em minha frente. Ou pelo menos foi o que acreditei, porque nada mais aconteceu. Voltei para casa arrependido de ter acreditado por vários anos no amor de Robert H. e lacrei sua carta em uma gaveta, na esperança de nunca mais abri-la novamente.

Alguns meses se passaram sem que nada acontecesse. Eu, por outro lado, estava muito enganado a respeito dos efeitos do ritual, que vieram até mim de modo satânico e imprevisível. Estava eu sentado na sala de estar de minha casa, assistindo a meu programa de televisão favorito, que como deves saber, chama-se As aventuras de Howard Philips. No início, foram sensações estranhas que se apoderaram do meu corpo, quase imperceptíveis, gestos que eu nunca fazia, passei a fazer, como mexer o cabelo com as mãos. Em algumas semanas, mudei até minha dieta, passando a desejar me alimentar de cenouras, que desde pequeno sempre tive desgosto.

Eu demorei até perceber estas sutis mudanças em minha psique, o que finalmente aconteceu quando eu, em um momento de necessidade, dirigi-me ao banheiro mais próximo e, por um motivo desconhecido, quase entrei no banheiro feminino. Pensei se tratar apenas de um lapso, mas quando, já no banheiro certo, me sentei na privada para urinar, percebi que havia algo errado comigo.


(continua...)


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